Estranhando o místico


A religião é um tema que nunca sai de moda, seja pelos aspectos culturais das tradições ou polêmicas envolvendo as mesmas (criadas por seus adeptos, claro). Como assunto importante e sempre atual, ela acaba entrando nas narrativas das HQs e na história de alguns heróis.

Alguns personagens como Superman, Thor, Odin, Kratos e outros, carregam consigo aspectos que de perto ou de longe representam deuses e semideuses, isso porque os heróis têm características divinas e aspectos salvificos. Em contrapartida, nem todos os heróis possuem características  divinas tão próximas às compreensões do coletivo, ou melhor, das concepções antropomórficas atribuídas às compreensões de Deus. Nas palavras de quem entende do assunto, o pesquisador Iure Reblin, compreende-se que..

“nem todo super-herói é uma nova representação para essas figuras; são, antes de tudo, uma representação de nós mesmos e daquilo que ora desejamos ser, ora tememos ser: pessoas melhores (às vezes, nem tanto), capazes de nos ajudarmos mutuamente, com forte senso de justiça (às vezes deturpado) e com liberdade de ação. E quando falamos em representações, personagens sempre serão um retrato difuso de nós mesmos, misturando diferentes elementos simultaneamente”.*

A religião não é jogada nas histórias em quadrinhos, como algo que merece ser abordado por obrigação, ela representa mais que isso. A mesma “é parte indelével da vida humana. É ela que lida com nossos maiores temores e também com nossas maiores esperanças. Autores não inserem elementos religiosos nas histórias em quadrinhos necessariamente (ou exclusivamente) por serem crentes ou não, mas, sim, porque a religião lida com valores ultimais que aspiramos e que são capazes de dar à própria vida humana a sua raison d’etre. A carga religiosa não se refere apenas a alegorias do universo religioso, mas ao sentido profundo que dá o horizonte ao nosso caminhar.” (REBLIN, 2016).

Com base nessa ponderação, viajaremos por outro universo, conhecido nosso ou talvez não, o Universo Marvel. A lista de personagens que comportam toda a história deste, não caberia nessas linhas. Queremos aqui estabelecer uma relação entre religião e misticismo, para tanto, nada melhor que trazer alguém que é pertencente desse campo místico, The Doctor Strange.

350465

Stephen Vincent Strange é o doutor Estranho, o mago supremo do Universo Marvel. Criado na década de sessenta por Stan Lee e Steve Ditko. Em suas aventuras, não faz uso de força física, mas usa e bem a sua inteligência e magia, que, ao longo de suas atividades foram sendo aperfeiçoadas. A história de origem é marcada por um acidente, sendo que Strange era um dos melhores neurocirurgiões de Nova Yorque, mas devido ao acidente de carro foi impedido do ofício. Depois disso, resolve gastar toda sua fortuna em busca incansável pela cura de seu trauma.

Na busca de cura, viaja até o Himalaia  à procura de uma pessoa denominada Ancião, que segundo boatos teria a cura por aquilo que Strange tanto almejava. O homem chamado Ancião ensina as artes místicas àquele que outrora queria suas mãos curadas. O lado místico do Doutor Estranho se desenvolve pelas experiências diretas ou intuitivas. A busca pelo transcendente é marcada pela relação direta e íntima com Deus, Strange expressa no altruísmo.

É importante ter presente que o misticismo e religião não podem ser confundidos. Uma vez que o misticismo transcende a religião, já que possibilita uma experiência pessoal com a divindade deixando de lado o intermediário. A sensação da experiência mítica foge do ambiente físico, algo possível graças a contemplação e meditação.

Tanto o misticismo como a religião evocam o sagrado e o divino, dessa forma é preciso ter claro que a religião designa todo o “emaranhado” conjunto de crenças, dogmas, costumes, ritos e rituais de uma comunidade monoteísta. Além disso, a religião traz consigo a história fundacional da mesma, escritos sagrados e lugares específicos para cultos. Com essa base é fácil notar que as experiências místicas se fazem presente nas maiores religiões do mundo e ainda mais nas histórias em quadrinhos.

Na história do personagem em questão, nota-se a procura por aquilo que traria a normalidade de sua vida cotidiana, no entanto, muitas coisas acontecem nesse percurso. Ele percebe que sua vida pode ser maior que apenas a cura de seu mal. Com as habilidades desenvolvidas, coloca-se em prática a alteridade, o que retoma a pauta dos aspectos religiosos e místicos.

Isso porque “o religioso nos quadrinhos remete a uma busca pelo sentido acerca do viver e do morrer. Isso significa que, numa perspectiva ampla, sempre que estou lidando com a tensão entre a vida e a morte numa perspectiva existencial ultimal, estou lidando com religião. E, nessa direção, autores sempre vão colocar uma carga religiosa em suas narrativas, porque a religião é parte indelével da vida humana.” (REBLIN, 2016).

*Todas as citações presentes no texto foram extraídas da entrevista concedida por Reblin, disponível em : <http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/viver/2016/05/18/internas_viver,645452/teologo-fala-sobre-a-religiosidade-presente-nos-super-herois.shtml&gt;. Acesso em 24 de junho de 2016.

 

Anúncios

Olhe com atenção!!


Temos a facilidade de atribuir algo miraculoso como mágica, tanto é, que tornou-se comum dizer que “nosso salário desapareceu num passe de mágica”. A mágica, no entanto, trata-se da arte de encenar truques que envolvem transformações e desaparecimentos de coisas pequenas e/ou coisas grandes. Não é de hoje que temos registro dessa arte de subjugar objetos com habilidade e rapidez. Conta-se que há um registro antigo atribuído ao primeiro ato mágico realizado, datado por volta de 2000 a. C, onde trata de um mágico chamado Dedi.

Por se tratar de arte antiga e temporal (histórica), nem tudo foi acolhido como espetáculo. Em alguns continentes, como o Europeu, onde a maioria da população era influenciada pelo poder da Igreja, a qual, esta, atribuía tudo à bruxaria. Por esse pensamento, muitas pessoas foram atacadas, pois se a pessoa realizasse atos que fugissem ao padrão da época era acusada de ter pacto com o diabo e consequentemente, perseguida.

Atualmente, o reconhecimento a esses artistas ganha espaço significativo, uma vez que conseguem atrair atenção do público infantil ao adulto. Os espectadores ficam fascinados pela destreza de suas mãos e habilidades com ilusões de ótica, com que os mágicos abusam da criatividade. Frente a tudo isso mencionado, temos um apreço especial por esse tipo de conteúdo, uma vez que transcende os palcos de apresentação, chegando a invadir nossa casa em mídia pop, como é o caso do filme intitulado “Truque de mestre”.

be7c6-truquedemestre_banner

O filme narra a história de um grupo de quatro ilusionistas, denominados de quatro cavaleiros. O que torna o enredo interessante está o fato de realizarem atos sincrônicos, ou seja, enquanto encantam o público com suas mágicas, o grupo também rouba bancos em outro continente e ainda por cima agem como uma espécie de Robin Hood, distribuindo a quantia roubada nas contas dos próprios telespectadores. Essas ações ilícitas, despertam a curiosidade dos agentes do FBI, os quais iniciam uma caçada desesperada na tentativa de capturá-los a todo custo.

Talvez o núcleo do filme gire em torno da celebre frase, “quanto mais perto você chega, menos você vê”. Trazendo para fora das telonas, serve perfeitamente para várias situações, sejam elas, familiares, escolares, trabalhistas e, relações políticas, no geral. Isso porque, somos enganados pelo nosso próprio ego, uma vez que, nos sentimos autoconfiantes, sem a possibilidade de sermos enganados, o que acaba acontecendo.

O filme mostra uma espécie de recrutamento, a formação de uma equipe. Anterior a isso, os mágicos recrutados trabalhavam sozinhos, realizando suas façanhas e ganhando o suficiente para se manter. Pelo trabalho em grupo, a renda aumenta satisfatoriamente. O trabalho em grupo visa a participação em uma espécie de seita “OLHO”. Este termo remete para a onipresença, insinua-se a presença em todo lugar e tempo.

Por fim, o filme traz um elemento a mais, um quinto cavaleiro, o que foi responsável por realizar a mágica maior, pegar quatro artistas que trabalhavam isolados e fazer trabalharem juntos. Além disso, o jargão do filme revela o contrário, o segredo é não olhar tão de perto, mas de longe e ser capaz de enxergar o passado. Tudo tem um propósito e um começo.

 

A deficiência não é impedimento para a prática do bem


A diversidade é enorme em todos âmbitos sociais. Nas HQ’s, a diversidade é um ponto que merece atenção, ainda mais pela estereotipização dos heróis. Em sua maioria são apresentados com uma bela fisionomia e perfeição. No entanto, o que deve ser observado com cautela e criticidade é toda a marginalização das minorias, pois a categorização de pessoas transcende negativamente da organização social e toma conta das Comics.

Essas poucas linhas, tratam de assuntos sociais. Especificamente, sobre a participação representativa de heróis portadores de deficiência, que direta ou indiretamente contribuem para a motivação de pessoas comuns. Assim como, esses guerreiros que não se deixam abater pelas suas dificuldades físicas nos fazem olhar a vida com mais carinho e gratidão. Uma vez que, mesmo com os membros perfeitos utilizamos, em excesso, reclamações e ingratidão. Tornamos problemas minúsculos em assombrosas dificuldades.

Podemos listar alguns personagens, não limitando-os, mas desejando que a lista e o espaço seja cada vez maior. Tais como: Puck é membro da Alpha Flight, grupo de mutantes do Canadá, é portador de nanismo, o que não foi o impedimento para lutar contra o crime; o filho do Exterminador, Joseph Wilson, vulgo Jericó, era mudo; Maya Lopez, foi uma vingadora e namorou com o Demolidor, cujo também é deficiente da visão. Maya é surda e também representa os nativos americanos. Possui a habilidade de copiar os movimentos de qualquer pessoa; o Doutor Meia Noite é portador de deficiência visual e, por fim, temos o professor Charles Xavier, cadeirante.

A lista de heróis não se esgota aqui, esses nomes retratam reflexos sociais e sua importância nos gibis. Ainda mais, reforçamos que no ambiente social a qual estamos inseridos o respeito e solidariedade devem ser praticados com mais frequência, pois não é raro perceber infrações e descriminações com relação aos portadores de deficiências.

 

Entre os clamores da Terra surge o herói


A capacidade de alcance das histórias em quadrinhos repercute direta ou indiretamente na sociedade. Pois muitas destas, apresentam em seu enredo assuntos de interesse social, tais como: drogas, preconceitos, sexo, violência, justiça e muitos outros. Essas narrativas, nas mãos dos educadores, são instrumentos importantíssimos nos processos educativos e podem contribuir para ações genuinamente éticas. Recentemente, o Papa Francisco escreveu uma encíclica que faz um convite todo especial para o cuidado da casa comum, o Planeta Terra.

size_810_16_9_capitao-planeta

Na década de 90, popularizou-se uma animação com o título Capitão Planeta. Até os dias atuais continua vivo na memória de muita gente, ainda porque a história girava em torno da temática da responsabilidade social. A narrativa animada foi criada pelo fundador do Cartoon Network, Ted Turner. A criação desta demonstra a preocupação dele com os problemas ecológicos que o Planeta vinha sofrendo, a vivacidade da animação alertaria diversos países e com certeza influenciaria as crianças, jovens e adultos.

No seriado piloto, Gaia, o espírito da terra. Que estava adormecida, desperta devido aos abusos humanos. Como forma de defender seus próprios recursos naturais, ela envia cinco anéis com poderes. Os responsáveis por estes, são cinco jovens escolhidos ao redor do mundo. Cada um desses, carrega consigo um anel mágico que representa os elementos da natureza e um representa o poder do coração. Os encarregados pelos anéis são: Kwame vindo da África; Wheeler da América do Norte; Linka da Europa Ocidental; Gi da Ásia; e, Ma-Ti da América do Sul.

unnamed

O poder elementar de cada anel corresponde a um bem natural. A terra é um desse, assim como representa a esperança de um mundo melhor entre todos, quem cuida desse anel da Terra é Kwame. Joey Wheeler, carrega a responsabilidade de zelar pelo anel do fogo. Este expressa a convivência humana com as grandes Metrópoles. O terceiro anel, do vento, fica sob o encargo da Linka. Este, assinala para o uso ético e responsável da ciência e tecnologia em favor do mundo. Gi possui o anel da água, simulando a empatia para com os animais e ecossistemas. Por fim, o quinto anel, do coração. Quem carrega-o no dedo é Ma-Ti, o anel representa a sabedoria dos povos e culturas humanas.

O anel carrega consigo um simbolismo todo especial, une sentimentos de compromisso e responsabilidade. Temos como exemplo, o anel de tucum (que poderia ser uma outra análise), este representa disposição por uma causa a ser defendida. Fica mais evidente quando nota-se que cada portador e responsável pelo anel e pelo planeta vem de uma região diferente, abrindo o leque da universalidade. Como um diapasão (objeto utilizado para afinar instrumentos musicais), que contribui para uma corrente uníssona, que pode ser direcionada para a mesma causa.

Podemos ponderar que o protetor do planeta, criado na década de noventa, não alcançou todos os objetivos almejados. Uma vez que, vinte e cinco anos depois um apelo foi lançado universalmente, sendo que toda educação ecológica recebida nessa década não evitou que o mundo fosse degradado a passos largos, e o que soa mais preocupante, sem nenhuma projeção de melhora.

Nem tudo está perdido, a Mãe Terra continua clamando por ajuda e enviando seus poderes naturais para o combate contra as atrocidades humanas em meio natural. Melhor de tudo é saber que cada um pode fazer sua parte na luta contra a degradação da Casa Comum, com atitudes simples e responsáveis: não desperdiçando água, não jogando lixo em locais inapropriados, com a seleta coletiva e muitas outras formas. Obviamente, com cada um fazendo sua parte é possível ouvir ressoar que “com a união de nossos poderes, o Capitão Planeta agradece”. O convite foi lançado!!

Homem-Aranha: um dilema na juventude


Existem inúmeras maneiras das pessoas se consagrarem na história, sejam por descobertas, construções, criações, dentre outras. Na nona arte, o que marca território é a expressão, a sequência e a qualidade das narrativas, dos traços e personagens. Alguns destes ficam gravados na história, um exemplo, dentre muitos, é o Homem-Aranha. Este super-herói foi criado por três experts, Stan Lee, Jack Kirby e Steve Ditko em 1962.  O jovem herói, Peter Parker, foi criado e educado por seus tios May e Ben Parker após seus pais Richard e Mary Parker serem mortos em uma missão, estes eram agentes secretos da S.H.I.E.L.D. O jovem conseguiu seus poderes após ser picado por uma aranha radioativa, no filme é uma aranha geneticamente modificada.

spider-man-3-tobey-maguire

Na história, o herói é um jovem. E como jovem tem uma quantidade de desafios que merecem sua atenção, desde a faculdade à luta por seu primeiro emprego, além de seus sentimentos, normais para sua idade.

Parece fácil para um jovem resolver todos os seus dilemas tendo poderes, no entanto, ele teve que tomar as melhores decisões e colocar-se como defensor das pessoas mais frágeis. Até porque, a decisão de tornar-se herói ganhou peso maior quando ouviu de seu tio Ben que “com grandes poderes tem que vir sempre grandes responsabilidades”. Responsabilidades para um jovem? É possível? Lógico que sim, ao contrário do que se escuta sobre os jovens, há sim uma preocupação e responsabilidade vindas destes, ainda mais quando direcionadas em vista de outras pessoas. “É nessa fase que um homem define aquilo que vai acabar sendo pelo resto de sua vida”.

homemaranha1

Atualmente, temos a maior população jovem do mundo e, evidentemente, muitos desses conhecem a história do cabeça de teia e identificam-se com ele. Ainda mais, por ser tão popular e sua história bem-sucedida comercialmente, suas narrativas transcendem além dos quadrinhos, chegando a ganhar espaço e séries de televisão, filmes, tiras de jornais, videogame.

A compreensão de jovem gira em torno da maturidade sexual, pois o jovem é aquele que se encontra entre o período da infância e maturidade. Muito se ouve sobre a faixa etária que considera uma pessoa jovem. Segundo a ONU, juventude é a faixa etária que caracteriza as pessoas entre 15 e 24 anos de idade. No Brasil, jovem é todo cidadão que compreende a idade entre 15 e 29 anos de idade, debaixo desse grande guarda-chuva juventude, ramifica-se ainda em jovem-adolescente, jovem-jovem, e, jovem-adulto.

O adolescente Peter começa a interiorizar as regras: aprende a valorizar-se, a escolher as normas a serem seguidas, a discernir o valor deles e aplicar a si mesmo as regras e as sanções. Nisso surge o altruísmo, os ideais se estendem a um contexto social mais amplo com respeito ao contexto familiar, bem como, as ações de Parker estão voltadas para obrigações internas e bem-estar dos outros. Essas atitudes o acompanham em seu desenvolvimento físico e moral, pois passa de um controle externo e pessoal das nossas ações e decisões para princípios desinteressados considerados dignos de obediência por si mesmo.

A admiração é tamanha por um ato heroico, que chega a chamar a atenção da população ganhando espaço nas mídias sociais, casos estes que deveriam ter caráter de normalidade, uma vez que somos chamados para a boa relação, sociáveis e corresponsáveis pela harmonia social. Assumir isso é estar disposto a grandes responsabilidades.

Iron Man: a conversão pós-exílio


O atual sistema de organização social vigente é o capitalismo. Os empresários que são beneficiados por sua sede inesgotável de poder econômico consideram-no o máximo, por outro lado, deixa um rastro enorme de pessoas excluídas e marginalizadas por esse mesmo sistema. São poucas as pessoas que monopolizam a riqueza para uso exclusivo, outros ainda ajudam muitos semelhantes. Essas pessoas que ajudam as outras são consideradas heróis reais. No universo da DC Comics temos o Bruce Wayne (Batman) que usa de seu poder aquisitivo para combater o crime. Na sua rival, a Marvel, temos o Tony Stark (Iron man ou Homem de ferro).

tony-hand-updated-robert-downey-jr-drops-major-marvel-hint-iron-man-4-or-age-of-ultron-trailer

O homem de ferro faz parte da galeria dos gênios Stan Lee e Jack Kirby, criado no ano de 1963. A situação que o personagem foi criado diz muito sobre ele. No ano de sua elaboração, “o período era bastante conturbado. Praticamente recém-saído da crise dos mísseis de Cuba, o governo norte-americano, então sob a presidência de John Fitzgerald Kennedy, havia decretado, em fevereiro, a ilegalidade de qualquer viagem, negócio ou transação comercial de cidadãos estadunidenses com a ilha de Fidel Castro”[1]. Com reflexos da Guerra Fria, o mundo vivia um cisma social, entre capitalismo e socialismo. Além de uma corrida armamentista desesperada.

O confronto armamentista que sinaliza o contexto histórico que o herói foi criado, marca também o roteiro de suas aventuras. Tony Stark é dono de uma das maiores fornecedoras de armas de destruição em massa, a Stark Industries. Quando se encontrava no Vietnã, e apresentava o poder de destruição de uma de suas armas, a “jericó”, Tony é atingido por uma delas. Pela consequência da explosão, seu corpo aloja estilhaços metálicos que podem atingir seu coração e decretar sua morte.  Os vietnamitas sequestram Stark e o aprisionam, o objetivo desta captura é força-lo para a construção uma arma com o mesmo potencial destrutivo. Para isso, conta com a ajuda de um velho cientista. Na empreitada pela liberdade, Tony engana seus carcereiros e projeta algo diferente do exigido. Projeta sua primeira armadura, desenvolvida a base de ferro, com a ajuda desta, consegue a tão sonhada liberdade. Após o ocorrido, retorna para sua cidade, de onde continua seu projeto de aperfeiçoamento da armadura e começa seu itinerário como herói.

3551664-iron-man-6800-hd-wallpapers

A personalidade de Tony Stark é apresentada por um ego enorme, autoconfiante e, diferentemente, dos demais heróis, não esconde a sua identidade secreta. No entanto, como revendedor de armas, tem culpa direta e indiretamente na morte de milhares de pessoas, vítimas de crimes de guerra. Diante desse cenário político, seus principais adversários ganham ênfase ideológicas, e, evidentemente, são ameaça constante ao Estados Unidos.

É interessante esse detalhe da identidade. Sendo que, a identificação com pessoas reais torna-se mais abrangente. Isso porque ecoa como convite para revestimo-nos com a armadura e ter “punho de ferro” contra as atrocidades legítimas. Tomamos como exemplo atual temos a Síria, que sofre guerras desde 2011. Além disso, pequenos conflitos fazem parte das situações mais corriqueiras. Todas essas situações de barbaridades, clamam por heróis reais, capazes de assumir a posição de herói no “locus vivendi”, ou melhor, assumindo uma postura altruísta capaz de perceber no outro o lugar teológico. Deus presente nas pessoas.

Os conflitos atuais seguem a lógica de uma frase dita pelo pai de Tony Starck, “para chegar à paz é necessário ter armas mais poderosas que o adversário”. Uma presença de um “operário da paz” é desejada desesperadamente. Sabemos que a situação atual não é tão animadora. Todavia, Starck nos recorda que “o mundo não é perfeito, mas é o único que temos. E no dia que as armas não forem mais necessárias para manter a paz eu vou começar a construir maternidades”. A consequência das armas utilizadas em combates não é exatamente a paz, muito pelo contrário, se evidenciam rastros de destruição e caos assustadores. As maternidades não são em sua totalidade ruins, mas que tal escolas?

Referência:

[1] VERGUEIRO, Waldomiro. A criação do homem de ferro nas histórias em quadrinhos, 2013. Disponível em: < http://omelete.uol.com.br/quadrinhos/artigo/a-criacao-do-homem-de-ferro-nas-historias-em-quadrinhos/&gt;. Acesso em 23 de setembro de 2015.

Mulher-Maravilha: ícone da luta pela igualdade entre gêneros


116863_Papel-de-Parede-Mortal-Kombat-vs-DC-Universe-Mulher-Maravilha_1440x9001

As histórias em quadrinhos são reflexos de assuntos e situações sociais. O conteúdo destas, muitas vezes, retrata fatos reais, por essa razão há narrativas de heróis negros, asiáticos, com necessidades especiais, mulheres, crianças e adultos. Certo que aspectos machistas ainda imperam nas narrações, mas sejamos sinceros, avanços foram dados a esse respeito, pouco, mas foi. Certos grupos têm facilidade para associar um herói às suas próprias vivências cotidianas. A Mulher-Maravilha, por exemplo, pode ser um ícone de luta de alguns grupos, podemos nos arriscar em associá-la à luta feminista. Ela é de nacionalidade grega, faz parte da lista quase infindável da DC Comics, foi a primeira a encabeçar a lista de heroínas da editora estadunidense. Teve sua primeira aparição no Estados Unidos em dezembro de 1941, foi criada por William Moulton Marston.

Ela também pode ser considerada a embaixadora das Amazonas, mulheres guerreiras, da ilha Paraíso. Sua mãe chama-se Hipólita, esta a envia ao mundo dos homens como mensageira e propagadora da paz, defensora ferrenha da verdade e a ponte que é capaz de ligar o homem aos deuses, essa informação nos provoca a observar que ela faz parte Tríade mais importante da DC, ou seja, Supermam, Mulher-Maravilha e Batmam. Não foi equívoco colocá-la entre os dois, como mencionei antes ela atua como uma ponte entre Deuses e mortais.

868mulher_maravilha

Em meio a um espaço que era dominado por homens, germe uma heroína com personalidade forte, livre e corajosa. Batendo de frente com falácias e atitudes ainda machistas de que a mulher é inferior ao homem, além disso, emerge um arquétipo inspirador, que remete para a auto-confiança e realização pessoal e profissional.  Como é filha de Hipólita e Zeus, recebe alguns poderes dos Deuses do Olimpo, tais como: velocidade, força, capacidade de cura acelerada, imunidade ao fogo, capacidade de voo e outros. Qualidades que podem ser encontradas em mulheres reais e batalhadoras, como nossas mães, professoras, amigas, entre outras.

O feminismo é um movimento social, filosófico e político que não prega uma ideia de que a mulher é superior ao homem, mas igual em direitos e deveres. Ainda visa o empoderamento feminino, destruindo as amarras opressoras patriarcais, baseadas nas normas de gênero. As lutas feministas, alteraram paradigmas que vão desde a cultura até o direito, no entanto, muito ainda pode ser feito. Em alguns países, vários direitos já foram alcançados em outros, a luta continua, mas não impossível de serem alcançados. Direitos de contrato, de propriedade, ao voto, de proteção contra a violência doméstica e outros.

Diante do que foi apresentado, todo e qualquer movimento que tenha como objetivo os direitos das mulheres podem ser considerados feministas mesmo que não sejam denominados pelos seus líderes. É preciso ter em mente que o “feminismo não prega ódio, feminismo não prega a dominação das mulheres sobre os homens. Feminismo clama por igualdade, pelo fim da dominação de um gênero sobre outro. Feminismo não é o contrário de machismo. Machismo é um sistema de dominação. Feminismo é uma luta por direitos iguais”[1]. E acreditamos que a Mulher-Maravilha, assim como outras heroínas, podem ser observadas nessa ótica, não com meras combatentes aos vilões e ao crime, mas como guerreiras que lutam por espaço na sociedade ainda muito patriarcal.

Referência:

[1] AVERBUCK, Clara. Feminismo para leigos. 2013. Disponível em : <http://www.cartacapital.com.br/blogs/feminismo-pra-que/feminismo-para-leigos-3523.html&gt;. Acesso em 20 de setembro de 2015.

A ecolocalização pode encontrar as vítimas da injustiça


As histórias em quadrinhos (HQ’s) estão entrando em voga em vários espaços sociais, culturais e religiosos por tratar conteúdos que proporcionam discursões. No entanto, ainda ouve-se alguns comentários preconceituosos do tipo “quadrinhos são coisas de crianças” ou “o que pode-se aprender com isso?”. Desde 1895, quando Richard Outcaul criou a história do Yellow Kid (Menino Amarelo) – considerada a primeira história em quadrinhos moderna – , as histórias em quadrinhos veem ganhando força e cada vez mais leitores apaixonados.

Com o aumento do público leitor, inúmeras histórias foram adaptadas para o cinema. Tanto é que a Marvel Comics uma das maiores produtoras de quadrinhos possui o seu próprio estúdio cinematográfico. E é uma das narrativas desta produtora que iremos tratar aqui. Trata-se do homem sem medo, o Demolidor. O filme foi lançado em 2003 e dirigido por Mark Steven Johnson, o roteiro utilizado no filme é uma adaptação dos quadrinhos escrita por Stan Lee, Bill Everest e Frank Miller. “Dizem que quando está prestes a morrer sua vida inteira passa diante de seus olhos, é verdade! Até mesmo para um cego”. Com essa frase ressaltamos que, o número de super-heróis portadores de necessidades especiais é pequena, mas que vem crescendo ao longo das construções. O Demolidor é o segundo herói cego das histórias em quadrinhos, seu antecedente foi o Doutor Meia Noite lançado em 1941.

download

O início do filme é marcado por uma série de flashbacks, o Demolidor aparece ferido em uma Igreja Gótica, na qual recebe ajuda do sacerdote responsável pela mesma. A partir dessa cena, o enredo passa a ser narrado pelo Demolidor apresentando todo o percurso até chegar ao drama a qual se encontra. A infância de Matt Murdock (Demolidor), não era fácil, era vítima de agressão pelos colegas da escola e morava com seu pai, um boxeador sem tanto sucesso.

Um dia quando resolveu fazer um percurso diferente para a escola, encontra seu pai agredindo um outro homem, na tentativa de fugir dessa situação corre desesperadamente e acaba sendo vítima de resíduos tóxicos. Devido ao acidente acaba ficando cego, em contrapartida, seus sentidos acabam elevando-se a níveis sobre-humanos. Com esse potencial, consegue apreciar o mundo ao seu redor como radar, sendo capaz de perceber todas as situações possíveis.

Após Matt perder a visão. Seu pai volta a treinar e prometem um ao outro nunca desistir e não ter medo de nada. Frente a isso, seu pai retoma a rotina de treinos exaustivos e volta a boxear. O Rei do Crime ordena que o pai de Matt entregue a luta, no entanto, diante a promessa firmada entre pai e filho não entrega a luta e combate de forma limpa e obtém a vitória. Descontente por não ter obedecido sua ordem, o Rei do Crime decreta sua morte, o seu corpo é encontrado por Matt junto a ele uma rosa.

Não é o primeiro herói que sabemos que tem o pai assassinado. Né mesmo? Vamos continuar, Matt uma vez adulto, coloca-se a serviço dos mais necessitados. Essa ação desdobra-se de duas maneiras: durante o dia atua como advogado defendendo pessoas com condições menos favorecidas; e, durante a noite atua como Demolidor, um vigilante que julga as pessoas que não conseguiu condenar como advogado.

Em um de seus momentos de folga, Matt acaba conhecendo Electra Natchios em um café. Depois acabam iniciando um relacionamento. Este, intensifica-se quando Electra perde o pai, assassinado a mando do Rei do Crime. Este é responsável por dar fim a todas as pessoas que atravessam seu caminho.

Rei do Crime contrata o Mercenário, que foi responsável por supostamente matar Electra e seu pai. O Mercenário tem um orgulho narcísico por nunca ter errado um alvo, fato que acontece com o Demolidor. Por ter um ego tão elevado, o Rei do Crime salienta que “orgulho demais pode matar um homem”. Como parte da promessa feita entre o Matt Murdock e seu pai, Matt não devia ter medo e essa questão passa a ser a problemática no diálogo entre o Mercenário e o Rei do Crime. Este último pergunta: “Como matar um homem que não tem medo de nada?”, logo é surpreendido pela resposta imediata do Mercenário: “colocando medo nele”.

Le-reboot-de-Daredevil-a-ete-propose-a-Ben-Affleck-mais-pas-Justice-League_portrait_w532

Em uma luta que remonta ao início do filme, Mercenário descobre que o Demolidor fica desnorteado quando ouve muito barulho, o que confunde seu “sonar-radar” aguçado. No entanto, o Demolidor percebe que no entorno da Igreja – palco do duelo – vários atiradores estão prontos para capturar os dois. E escuta um tiro vindo de fora, o qual atinge as mãos do Mercenário, o que alude para o crucificado que pede piedade ao justiceiro mascarado. Após derrotar o Mercenário, vai atrás do Rei do Crime e o derrota também.

Com isso, o Demolidor acaba tornando-se o guardião de Hell’s Kitchen. Como o mesmo disse “um bairro como qualquer outra coisa tem alma e almas não mudam”. Mas será que uma pessoa sozinha é capaz de mudar o mundo? Matt diz que “têm dias que acredita, outros perde totalmente a fé”. A crença na mudança fica cada vez mais complicada, uma vez que a justiça é cega. Mas e daí?? O Demolidor também é, e com ecolocalização pode ouvir e saber de onde vem o clamor. Motivando todos a fazerem sua parte, isso porque todos carregamos um herói dentro de nós. Além disso, “em certos dias só é preciso ter fé”.

Rango: identidade camuflada


Na história de um povo, encontram-se fatos que induzem uma reflexão sobre dominação, ou melhor, as tais situações de opressão. É constante observar acontecimentos que apresentam problemas de domínio, sejam de elites dominantes ou de poder estrangeiro. Dentre esses casos temos a narrativa bíblica do êxodo, nesta encontra-se a caminhada de libertação do povo de Israel pelo deserto, guiado por Moisés.

O projeto do êxodo com as suas perspectivas teológico-éticas é o fundamento da fé bíblica. Nele, o Deus de Israel revela suas características identificadoras: atento ao sofrimento dos escravos hebreus no Egito, o Deus Iahwer conduz os oprimidos para fora da sociedade que os oprime, dá-lhes seu ensino e leva-os a uma terra boa, a fim de que os libertados construíssem uma sociedade alternativa que garantisse, da forma mais ampla, a ‘liberdade’ política e, sobretudo, econômica, a de todos os seus membros[1].

Esse parágrafo introduz a narrativa que iremos discorrer, trata-se de uma animação muito interessante chamada Rango. O personagem homônimo é um camaleão de estimação acostumado com a cidade grande que vai parar em pleno velho oeste, que na busca por água e ajuda acaba chegando na cidade de Poeira no deserto do Mojave, na Califórnia. Sua vida tranquila de animal de estimação muda radicalmente, sendo obrigado a abandonar sua segurança “camuflada” para enfrentar os perigos existentes no mundo real, fazendo com que ele vivencie a experiência de fazer amigos, conhecer inimigos e até, se tornar um herói. O filme foi dirigido por Gore Verbinski e produzido por Graham King, com ano de lançamento em 2011.

rango_3

O filme apresenta elementos que possibilitam novos horizontes. O personagem principal enfrenta uma enorme crise de identidade. Como se fosse “um herói a procura de sua própria história”[2]. Na tentativa de resposta à pergunta que surge ao longo do filme – Quem sou eu? – Rango vai dando respostas a estas inquietações. Para cada momento que surge esse questionamento, há uma resposta diferente, isso porque, “o sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um ‘eu’ coerente. Dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identidades estão sendo continuamente deslocadas”[3]. Nesse sentido, ter seguro a identidade é uma construção cômoda de nossa estória ou ainda uma “confortadora narrativa do eu”.

Com essas empurradas diferentes dadas pela identidade, Rango acaba indo parar na cidade chamada Poeira, no meio do deserto. Sua caminhada pelo deserto, faz um comparativo com o povo itinerante no deserto na narrativa do êxodo. “Como o acontecimento ‘êxodo’ sempre foi o grande mito fundante da identidade do povo, este mito era relido sempre que havia necessidade de um retorno às fontes”[4]. Em meio a isso, emerge a vocação de herói do Rango, nessa caminhada seus companheiros são “a morte e o deserto”.

Quando chega na Cidade denominada Poeira, surpreende os moradores pelo sotaque e estilo diferente, ainda mais por mostrar-se valente. Acontece a epifania do herói, uma vez que o “herói não pode existir no vácuo”. Por mostrar-se corajoso acaba ganhando a confiança do povo, ou melhor, por uma jogada de sorte consegue matar uma águia que rondava e ameaçava todos do lugar. Com esse golpe de sorte e bravura, torna-se o xerife do espaço, e sua primeira missão é desvendar o caso do roubo de água. O lugarejo tinha  água abundante, mas alguém estava monopolizando-a.  Na cidadezinha, todas as quartas ao meio dia, era horário de buscar água. Considerado pelo prefeito como “o dia da libertação”, o líquido saia de uma grande torneira considerada sagrada.

rango_pic

A água representa a esperança, vê-la é como confrontar com o “rosto de Deus”. No deserto, quem controla a água controla qualquer coisa. E quem estava controlando tudo era a pessoa do prefeito. Como sabia que seus planos estavam para ser descobertos pelo xerife, profere em tom de ameaça que “nosso pequeno xerife está bancando herói há tanto tempo que se confundiu com o personagem”. Mas, como “ninguém pode fugir de sua própria história”. O pequeno lagarto acaba sendo capaz de responder à pergunta problema, sabe quem ele é. E por isso adota posturas de “coragem, altruísmo, a disposição para o sacrifício em prol do outro, a determinação, enfim, princípios nobres difíceis de se encontrar ou de se ver espelhado na sociedade em geral”[5].

Por fim, reitera-se importância de manter a esperança viva. Com a capacidade de poder dizer quem é, Rango assume o arquétipo do herói, “um tipo de ideal que serve de referência para todos”[6]. Além disso, Hall salienta que “a identidade […] preenche o espaço entre o ‘interior’ e o ‘exterior’ – entre o mundo pessoal e o mundo público. […] A identidade, então, costura (ou, para usar uma metáfora médica, ‘sutura’) o sujeito à estrutura. Estabiliza tanto os sujeitos quanto os mundos culturais que eles habitam, tornando ambos reciprocamente mais unificados e predizíveis”[7]. A identidade que Rango assumiu não se deu de uma hora para outra, mas foi sendo formada pelos processos imaginários ou fantasiados sobre a sua própria pessoa.

Referências:

[1] GRENZER, Matthias. O projeto do êxodo. São Paulo: Paulinas, 2007, p. 13.

[2] VERBINSKI, Gore. Rango. Direção: Gore Verbinski. Paramount Pictures, 2011. 1DVD (107 min), color.

[3] HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A Ed., 1997, p. 13.

[4] OROFINO, Francisco. As releituras do Êxodo dentro da Bíblia, 2007, p. 7-13. In: CONFERÊNCIA DOS RELIGIOSOS DO BRASIL. Êxodo: um caminho em busca da liberdade. Porto Alegre: Com-texto Gráfica e editora, 2007, p. 9.

[5] REBLIN, Iure Andréas. O planeta diário: rodas de conversa sobre quadrinhos, super-heróis e teologia. São Leopoldo: EST, 2013, p. 34.

[6] REBLIN, 2013, p. 49.

[7] HALL, 1997, p. 11-12.

“Laudato Si”: são os vícios que lembram quem é o ser humano


laudato-si-432x242px-hq

A encíclica do Papa Francisco, “Laudato Si”, faz parte do cântico “Laudato Si, mi’ Signore cantado por São Francisco de Assis. Neste cântico, Assis recorda que o planeta Terra, nossa casa comum, pode ser comparada como uma irmã que merece nossa atenção e cuidado. “Esta irmã clama contra o mal que lhe provocamos por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nela colocou. Crescemos pensando que éramos seus proprietários e dominadores, autorizados a saqueá-la […]”[1]. Ainda mais, o atual paradigma que rege a organização social caminha bem distante desse ideal de preservação, isso se dá pelo “capitalismo selvagem” que visa desesperadamente o lucro.

O rastro deixado pelo sistema capitalista não será invisível e nem apagado rapidamente. E um modelo que reverta isso ainda não foi construído, o ciclo não continua, fica estagnado. Se faz necessário a adoção de um “modelo circular de produção que assegure recursos para todos e para gerações futuras e que exige limitar, o mais possível, o uso de recursos não renováveis, moderando o seu consumo, maximizando a eficiência no seu aproveitamento, reutilizando e reciclando-os”[2]. Como a durabilidade dos objetos elaborados é pequena, instaura-se a cultura do descarte, com facilidade coisas e seres humanos são excluídos como lixo.

O clamor dos biólogos, ecologistas e muitos outros pesquisadores é ensurdecedor, no entanto, o que se vê de todos os lados é a negação dos problemas, indiferença, confiar cegamente na própria tecnologia. A possível solução é despertar a consciência da humanidade para uma imediata “mudança no estilo vida, produção e de consumo”. Como eixos transversais, a encíclica apresenta no mínimo dez, tais como:

 […] a relação íntima entre pobres e a fragilidade do planeta; a convicção de que tudo está estreitamente interligado no mundo; a crítica do novo paradigma e das formas de poder que derivam da tecnologia; o convite a procurar outras maneiras de entender a economia e o progresso; o valor próprio de cada criatura; o sentido humano da ecologia; a necessidade de debates sinceros e honestos; a grave responsabilidade da política internacional e local; a cultura do descarte; e, a proposta de um novo estilo de vida […][3].

Esses dez eixos refletem a fragilidade da riqueza do planeta, entre essas riquezas temos a água. A composição desta como se sabe, se dá pela união de dois átomos de hidrogênio (H) e um de oxigênio (O), formando assim a molécula de H2O. A água é uma das substâncias mais abundante no Planeta Terra, presente nos três estados físicos: sólido (geleiras); líquido (oceanos e rios); e, gasoso (vapor de água na atmosfera). Essa tríade física soma-se, aproximadamente, 70% da quantidade que cobre a superfície do planeta, porém, desta porcentagem, apenas 3% é de água doce, concentrada em sua maior parte em geleiras.

O sumo pontífice chama a atenção para o mau uso desse bem natural, assim como sua destinação para atividades econômicas. Estima-se que 69% de toda água potável seja destinada para a agricultura, 22% para a indústria e, 9 % para consumo humano. Frente a esse reforço natural, o ser humano retribui com a poluição dos rios devido os esgotos familiares, efluentes industriais, resíduos hospitalares, dentre outros. Todos esses materiais químicos produzidos pelo homem e despejados em locais indevidos, alteram as propriedades físico-quimicas da água.

O Santo Padre ainda relembra que “os oceanos contêm não só a maior parte da água do planeta, mas também a maior parte da vasta variedade dos seres vivos, muitos deles ainda desconhecidos para nós e ameaçados por diversas causas”[4]. Além disso, nos mares tropicais e subtropicais “encontramos os recifes de coral, que equivalem às grandes florestas da terra firme, porque abrigam cerca de um milhão de espécies, incluindo peixes, caranguejos, moluscos, esponjas, algas e outras”.

Este cenário acima citado, apresenta alguns personagens conhecidos pelas crianças. Uma menção ao Senhor Bob Esponja, o calça quadrada. Bob Esponja é uma série de animação norte-americana, criada pelo biólogo marinho e animador Stephen Hillenburg. As aventuras acontecem na cidade subaquática Fenda do Biquíni, nela, acontecem inúmeras peripécias do personagem principal da série juntamente com seus amigos. A origem das histórias conta com uma ajudinha e inspiração de outra história em quadrinhos de cunho educacional com o título “The Intertidal Zone”, escrita por volta de 1980 por Hillenburg[5], por outro lado, a série televisiva sobre o Bob Esponja foi exibida em meados de 1996.

O interesse de escrever sobre essa animação se deu por um vídeo do Mega Curioso denominado “curiosidades aleatórias sobre personagens de histórias em quadrinhos”[6]. Os personagens que serão abordados desta série são: Bob Esponja, Lula Molusco, Patrick, Sandy, Sirigueijo, Gary, Plankton. Segundo o vídeo, cada um desses pode ser a representação de um dos pecados capitais. Não tomaremos como verdade essa informação, mas é interessante trazê-los presente frente à “Laudato Si”.

Capturar

Seguiremos apresentando informações a mais sobre cada uma dessas personalidades. Listaremos cada um na sequência. Lula Molusco é um arrogante e mal-humorado polvo que vive em uma casa de pedra ao lado do Bob Esponja, o qual é seu colega de trabalho no Siri Cascudo. Ele não gosta do Calça Quadrada devido à falta de maturidade e por agir infantilmente. Na tentativa de mascarar seu descontentamento com os vizinhos e com seu trabalho, gosta de tocar clarinete e pintar autorretratos. Dito tudo isto, este personagem é representado com a pecado da ira. Segundo Galimberti, “a ira é um sentimento mental e emotivo de conflito com o mundo externo ou consigo mesmo que controlamos pouco e manejamos pior ainda porque, sendo presas da ira, deixamos de tornar-nos sujeitos de nossas ações”[7].

A ira conservará o nosso lado racional e bem-educado, e, consequentemente, culpará sempre o outro como responsável. Com o auxílio da filosofia clássica, podemos ressaltar que “é fácil irar-se, todos são capazes disso, mas não é absolutamente fácil e sobretudo nem todos são capazes de irar-se com a pessoa certa, na medida certa, no modo certo, no momento certo e por uma causa justa”[8], isso resume os momentos de ira do Lula Molusco.

Um dos vícios capitais, que representa o Patrick Estrela é a preguiça. Ele é uma rosa, simpática e estúpida estrela do mar que mora debaixo de uma pedra. Sua casa fica à esquerda de Bob Esponja, seu melhor amigo. Além de seus ‘retrocessos mentais’, não demonstra muito interesse, suas impressões são monótonas, imóveis e tediosas, “que os medievais chamavam de ‘preguiça’”. A preguiça será melhor entendida não como a falta de coragem para fazer algo, mas como a repetição, ou seja, o homem ficar seguro no clima de espera, onde aguarda o dia seguinte, no entanto, repete tudo novamente.

Com todo o sucesso do Siri Cascudo, acaba invejando outros empreendedores. O Plankton, proprietário de um fracassado restaurante chamado Balde de Lixo, o qual fica localizado frente ao do seu rival Sirigueijo. Ele tenta de todas as formas roubar a fórmula secreta do Siri Cascudo. A labuta em busca de receita do hambúrguer de siri “é uma tentativa desesperada de salvaguardar a própria identidade quando se sente ameaçada pelo confronto com os outros”[9]. Esse confronto se dá pelo fato do invejoso não saber dominar e se estruturar apenas para isso.

Segundo Galimberti, “entre a inveja e a soberba existe um parentesco sutil, devido ao fato de que o soberbo, se, por um lado, tende a superar os outros, por outro lado, quando é superado, não se resigna e o efeito dessa não-resignção é a inveja”[10]. A personagem que se encaixa nesse vício capital é a Sandy Bochechas. Ela é uma esquila texana e segunda melhor amiga de Bob Esponja, cientista e especialista em karatê. A mesma vive em uma cúpula com uma árvore debaixo d’água. Quando sai de sua cúpula, ela usa um uniforme de astronauta, pois não pode respirar debaixo d’água. Por meio disso, ressalta-se que a soberba se dá de maneira relacional, uma vez que é necessária relação com outras pessoas para mostrar sua superioridade.

Superioridade pode se dá por inúmeras vias, uma delas é o poder econômico. Com esse perfil temos o proprietário do Siri Cascudo, Senhor Sirigueijo. Um avarento caranguejo obcecado por dinheiro. É o chefe de Bob Esponja e Lula Molusco. O plano dele é sempre conseguir mais dinheiro, pois “o desejo do avaro nunca vai além do dinheiro, porque aos olhos do avaro o dinheiro não é um meio para qualquer outra coisa, mas um fim em si, aliás, a forma pura do poder que o dinheiro possui, com a única condição de não ser gasto”[11].

A representação do seguinte personagem é mais sutil, disfarçada. Quase não fica evidente o seu vício capital, assim como sua aparição nas histórias. Trata-se do animal de estimação do homônimo da narrativa, Gary. Este, é um caracol que mia como gato e possui um apetite voraz como de um leão. Seu pecado é a gula. Ela é incentivada pelo paladar e olfato, estes são os sentidos mais arcaicos que colocam as zonas mais primitivas do nosso cérebro em ação. “A gula, mais do que um vício capital, é uma chamada à nossa animalidade, a herança da nossa antiga condição”[12].

Para terminar os personagens da história, temos o Bob Esponja Calça Quadrada, este é uma enérgica e otimista esponja do mar que vive em um abacaxi no fundo do oceano com seu caracol de estimação, Gary. Para esse, reservamos o vício da luxúria. Na compreensão comum diz respeito a “uma emoção intensa pelo desejo do corpo”, no entanto, em uma apreensão mais correta poderíamos nos arriscar a dizer que seria o amor excessivo dos outros. Com todo seu otimismo, Bob Esponja demonstra seu amor por todos em sua volta, das formas mais exuberantes possíveis, isso porque, “é a renúncia à vergonha como a última autodefesa, perfeito despojamento da entrega de si, esquecimento da medida, entrega da mente, que é a defesa da razão, incapaz, ao contrário do erotismo, de apresentar a verdade sem possuí-la”.[13]

Dentre esses personagens analisados, outros também fazem parte da série, tais como: “a professora de direção Sra. Puff, Larry a Lagosta, a baleia Pérola (filha de Sr. Sirigueijo), Karen, “esposa” de Plankton — que, na verdade, é um computador que ele consertou —, e a dupla favorita de super-heróis de Bob Esponja e Patrick, formada pelo Homem Sereia e seu companheiro, Mexilhãozinho”.

Portanto, as comparações de cada personagem com um dos “pecados capitais” não quer ser tomada com a única verdade, até porque sabe-se que toda comparação é sinônimo de limitação. Com estas linhas, queremos chamar atenção para o cuidado com nossa casa comum. Somos seres de desejos e, ao longo da história social, já se cometeram, cometem e continuarão cometendo cada um desses vícios, todavia, deve-se atentar para o extremismo, ou seja, o ser humano deve intervir quando percebe que estamos entrando em estado crítico. Esse é o convite do Sumo Pontífice.

Referências:

[1] FRANCISCO. Carta Encíclica Laudato Si: sobre o cuidado da casa comum. São Paulo: Paulinas, 2015, nº 2.

[2] Idem, nº 22.

[3] Idem, nº 16.

[4] Idem, nº 40.

[5] SpongeBob SquarePants. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/SpongeBob_SquarePants&gt;. Acesso em 29 de agosto de 2015.

[6] MEGA CURIOSO. Curiosidades aleatórias sobre personagens de histórias em quadrinhos. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=mIym2JTDv7s&gt;. Acesso em 29 de agosto de 2015.

[7] GALIMBERTI, Umberto. Os vícios capitais e os novos vícios. São Paulo: Paulus, 2004, p. 19.

[8] ARISTÓTELES apud GALIMBERTI, 2004, p. 21.

[9] Idem, 2004, p. 33.

[10] Idem, 2004, p. 39.

[11] Idem, 2004, p. 47.

[12] Idem, 2004, p. 53.

[13] Idem, 2004, p. 61.